
Sempre achei que para que
Sebastian Vettel entrasse para o seleto grupo de gênios faltava-lhe ainda
algumas corridas heróicas no currículo, como aquela de Senna no Japão em 1988,
quando conquistou seu primeiro título, algumas apresentações de gala de Schumacher
ainda nos tempos de Benetton, a temporada que vem fazendo Alonso este ano,
andando mais que o carro... Não falta mais. A atuação de Vettel em Abu Dhabi
este ano foi digna de heroísmo.
Claro que nunca duvidei de seu
talento. Desde sua primeira aparição, nos treinos livres para o GP dos Estados
Unidos, em Indianápolis 2006, ficou nítido que ali havia um garoto de brilhante
futuro. Lembrava Senna, com sua audácia em andar mais que todos os mais
estabelecidos na chuva, como em Nurburgring em 2008, quando não chegou ao pódio
devido a uma barbeiragem de Hamilton atrás do Safety Car (quase bateu e freou
muito forte, obrigando Vettel, que vinha atrás de Toro Rosso, a sair para a
grama e bater na mureta de proteção). Depois em Monza, com pole e vitória! De Toro
Rosso, uma equipe que um dia foi Minardi! Na chuva! Ali, muitos passaram a com
pará-lo a Ayrton Senna.
Claro que hoje seu carro é o
melhor da F1 atual. Ultrapassar vários carros mais fracos, não é lá muito
difícil com uma máquina afinada de Adrian Newey nas mãos. Mas Vettel largou dos
boxes, punido por não deixar combustível suficiente para análise após os
treinos, onde tinha o terceiro melhor tempo. Abu Dhabi é uma pista chata de
passar.
Na primeira volta estava em 20º.
Na quarta já estava em 14º. Então o Rosberg passou por cima da HRT de Karthikeyan
(puta bagaçada) e o Safety Car juntou todo mundo.

Sorte de Vettel. Alonso já
começava a se preocupar. Mas Vettel estava com a asa danificada por uma disputa
feroz com Bruno Senna e Timo Glock. Simplesmente os três dividiram a mesma
curva. Vettel passou os dois, mas esbarrou em Senna e quebrou um pedaço de sua asa.
Mas o carro ia bem até que, nas voltas atrás do Safety Car, Vettel estava
aquecendo pneus atrás de Ricciardo, da Toro Rosso, quando foi fechado por pelo
australiano. Teve que sair da pista e atropelou a placa que sinaliza a zona de
acionamento do DRS. Estas placa é de isopor, mas mesmo assim danificou ainda
mais sua asa dianteira. Foi obrigado a antecipar sua parada e caiu para último de
novo. Com pneus novos macios, quando todos estavam com médios desgastados, ele
deu um show. Passava dois de uma vez na mesma freada! Aí sim, Vettel.
Lá na frente Hamilton liderava
tranquilo, com Raikkonen em segundo (fez ótima largada, saindo de quarto),
Maldonado em terceiro (fez ótima classificação outra vez o venezuelano), Alonso
em quarto, Webber em quinto, Button em sexto e Massa somente em sétimo.
Alonso largou muito bem e fez uma
das mais belas ultrapassagens da temporada sobre Webber, na freada da segunda
reta, por fora, fritando pneus e tudo. Na raça!
Depois despachou Maldonado e se
estabeleceu em terceiro, próximo de Raikkonen.
Hamilton, mais uma vez, morreu na
praia. Após dar um show nos treinos, enfiar mais de meio segundo na rapa ao
conquistar a pole, liderar a corrida (cometeu um só erro na freada da reta
principal e saiu da pista, quase perdendo a posição para Raikkonen), teve um problema
na bomba de gasolina e abandonou de novo. Muito azar para Hamilton este ano.
Poderia estar lutando pelo título.
Raikkonen assumiu a ponta e Vettel
já aparecia em segundo após a primeira rodada de pits e a corrida se
movimentou. Alonso passou Maldonado, que dormiu, assumindo a segunda posição.
Webber, após tomar o passão por
fora de Alonso, ficou puto e quis fazer igual. Primeiro com Maldonado. Tocou
rodas e rodou. Maldonado seguiu na boa. Depois com Felipe Massa. Do mesmo
jeito, na freada da segunda reta pôs de lado, dividiu com Felipe por dentro,
tocou rodas, espalhou e foi por fora da pista. Ao voltar, jogou pra cima de
Massa, que freou e rodou. Reclamou muito pelo rádio o brasileiro, mas a FIA
interpretou como “no further action”.

Depois Button quis ensinar Webber e
mostrou como se passa Maldonado na mesa curva, só que por dentro.
Vettel, com pneus desgastados,
começava a perder terreno para Raikkonen. Parou e voltou em quarto. Isto já lhe
garantia a liderança do campeonato.
Mas as emoções ainda não haviam
terminado. Numa bela disputa, Paul Di Resta (Force India) tentava ultrapassar
Grosjean da Lotus. Sérgio Perez (Sauber) vinha no vácuo dos dois. Na já famosa
freada da segunda reta (melhor ponto de ultrapassagem da pista), Di Resta botou
por fora e forçou pra cima de Grosjean na freada. Perez, no maior estilo game,
freou lá dentro e tentou passar os dois. Passou Grosjean na primeira perna da
chicane e dividiu a segunda perna com Di Resta. Perez saiu da pista e ao
retornar (assim como Webber fez com Massa) tocou em Grosjean e os dói bateram,
levando junto Mark Webber que vinha atrás. Safety Car de novo. Pérez, Grosjean
e Webber fora. Sorte de Massa e Bruno Senna que herdaram estas posições e
brigavam pela 12ª posição.
Juntou todo mundo novamente e
Vettel colou em Button, que estava em terceiro. Ficou 10 voltas tentando uma
maneira de ultrapassar sem se arriscar, afinal, largar dos boxes e terminar a
prova em quarto, ainda à frente do campeonato, já era mais que suficiente.
Mas Vettel é piloto e piloto não
perde a oportunidade. Como a equipe Ferrari avisou divertidamente Alonso pelo
rádio: Button dormiu e Vettel o passou. Passou por fora, no maior estilo, na
mesma curva onde Webber tentou e não conseguiu duas vezes. Aí sim, Vettel!
O rádio, aliás, foi a grande
atração deste GP. As patadas de Raikkonen em seu engenheiro na corrida foram
hilárias. “Deixe-me em paz, eu sei que estou fazendo” disse ao ser informado
que seu engenheiro o manteria informado o tempo todo sobre a sua diferença para
Alonso. Noutra, ao ser aconselhado por seu engenheiro para cuidar do desgaste
dos pneus, respondeu, cortando: “Sim, sim, sim, eu sei, estou fazendo isso
desde o começo da corrida”. Agora sei por que Kimi não deu certo no WRC. Se ele
se incomoda com pequenas frases no rádio, imagina ficar o tempo inteiro ouvindo
o navegador ao lado? Deve ter ficado maluco.
Alonso fez ótima corrida e chegou
em segundo e Vettel, brilhantemente em terceiro.
A antessala do pódio era a síntese
do campeonato. Raikkonen e Vettel conversavam animadamente, enquanto Alonso
descansava sozinho, afastado deles, nitidamente desolado.
Parabéns para Raikkonen pela
vitória e por fugir do estereótipo de robozinho do mundo da F1. Após a festa da
champanhe, na entrevista que fazem agora, ainda no pódio, David Coulthard
(ex-piloto e agora comentarista de TV) perguntou se ele se sentia mais feliz
com esta vitória em relação às demais que já teve.
Ele respondeu: “No much, really”
(Não muito, para ser sincero). De mais!
Parabéns à Lotus. Foi sua 80ª
vitória. A última foi no GP de Detroit, EUA, 1987, com Ayrton Senna.
Parabéns aos pilotos que fizeram
deste GP de Abu Dhabi num dos melhores da temporada, com muitos pegas e muitas
ultrapassagens. Mostraram que mesmo em
uma pista onde sempre teve corrida chata, basta ter peito e raça que o show
acontece.
Após três pistas perfeitas para os
carros da Red Bull, com quinas, retas, curvas em 90º, plano, enormes áreas de
escapes como foi na Coréia, Índia e Abu Dhabi, a F1 chega em um pista nova nos
Estados Unidos. A pista de Austin, no Texas, promete ser bastante seletiva, com
aclives e declives, “S” em sequência, curvas cegas. Lá e em Interlagos a
Ferrari pode ter alguma reação, apesar de a Red Bull ter dominado Interlagos
nos dois últimos anos.
Espero que sejam corridas tão boas
como foram esta de Abu Dhabi, a de Valencia, a do Canadá, etc.
